“Este é o meu Filho amado em quem eu coloco a minha afeição.”
ARTIGO – Com a celebração do Batismo do Senhor fechamos o Tempo Litúrgico do Natal e iniciamos a primeira parte do Tempo Comum.
Ainda iluminados pelo Natal, por excelência a festa do Pai, vemos no Batismo de Jesus a manifestação da Trindade, onde o Pai declara todo o seu amor pelo Filho e o unge com o seu Espírito. No Batismo, Jesus inaugura sua vida pública de anúncio do amor e da misericórdia do Pai, e do seu Reino que já está no meio de nós.
Cerca de 700 anos antes, o profeta Isaías já anunciava a vinda do Messias: Assim fala o Senhor: “Eis o meu servo – eu o recebo; eis o meu eleito – nele se compraz minh’alma; pus meu espírito sobre ele, ele promoverá o julgamento das nações. Ele não clama nem levanta a voz, nem se faz ouvir pelas ruas. Não quebra uma cana rachada nem apaga um pavio que ainda fumega; mas promoverá o julgamento para obter a verdade. Não esmorecerá nem se deixará abater, enquanto não estabelecer a justiça na terra; os países distantes esperam seus ensinamentos. Eu, o Senhor, te chamei para a justiça e te tomei pela mão; eu te formei e te constituí como o centro de aliança do povo, luz das nações, para abrires os olhos dos cegos, tirares os cativos da prisão, livrares do cárcere os que vivem nas trevas”. (Is 42,1-4.6-7)
Todo o Antigo Testamento profetizou a vinda do Messias e João Batista é considerado o último profeta que veio para aplainar os caminhos do Senhor e endireitar as suas veredas. (Lc 3,4 ) Em Jesus se cumpre a profecia: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu; e enviou-me para anunciar a boa nova aos pobres, para sarar os contritos de coração, para anunciar aos cativos a redenção, aos cegos a restauração da vista, para pôr em liberdade os cativos, para publicar o ano da graça do Senhor.” (Lc 4,18-19)
Jesus é o Servo por excelência. Ele é o Filho amado do Pai e o seu prazer é cumprir a vontade daquele que o enviou. A sintonia entre o Pai e o Filho é profunda, Deus Pai apresenta o Filho amado e o Filho revela o Deus de Abraão, Isaac e Jacó não apenas como o Deus da aliança, mas como o Pai de amor que realiza a nova e eterna Aliança. É através do sangue do Filho que a misericórdia do Pai é derramada sobre nós.
Dentro da espiritualidade de Schoenstatt, vemos a imagem de Cristo, o Filho amado do Pai, que no Batismo e no Tabor da Transfiguração é apresentado pelo Pai. O padre José Kentenich, nosso Pai e Fundador, quis esculpir no coração da Família esta imagem de filhos amados, miseráveis, mas dignos de misericórdia, através de uma filialidade heroica e uma busca diária de santidade.
A filialidade heroica
A filialidade heroica de Jesus foi cumprir em tudo a vontade do Pai. Jesus assume nossa humanidade para anunciar que Deus é amor, mesmo que fosse preciso morrer na cruz para isso, “Sendo ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens. E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz.” (Fl 2,6-8)
Jesus assumiu com amor cada desafio que se levantava a sua frente, mesmo nascendo num estábulo, sendo perseguido por Herodes, rejeitado pelos seus, acusado de blasfêmia e de expulsar demônios em nome de Belzebu. Em resposta, ele acolhia com misericórdia e curava os doentes, libertava os oprimidos, alimentava os famintos e instaurava o tempo da graça. Mesmo na cruz, ao pedir por três vezes que o Pai afastasse o cálice, ele volta atrás, pois, seu maior desejo era cumprir sua missão heroicamente até o fim. E o Pai o glorificou: “Por isso Deus o exaltou soberanamente e lhe outorgou o nome que está acima de todos os nomes, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho no céu, na terra e nos infernos. E toda língua confesse, para a glória de Deus Pai, que Jesus Cristo é Senhor. (Fl 2,9-11)
Nós somos chamados à esta filialidade heroica. Somos chamados a assumir com amor “as lascas da cruz de Cristo” que por ventura nos são impostas. À exemplo de Cristo, o Filho amado do Pai, deixemo-nos moldar pelas mãos da Mãe Três Vezes Admirável, nossa educadora, que quer formar um outro Cristo em nós.
Em nosso livro de orações, o Rumo ao Céu, o Pai Fundador nos ensina o caminho para a filialidade heroica através da oração “Eu te peço toda a cruz”:
Pai, eu te peço toda a cruz e sofrimento
que preparaste para mim.
Liberta-me da vontade própria e doentia,
que eu satisfaça teus mais leves desejos!
Torna-me semelhante, igual a meu Esposo,
só então serei feliz e sumamente rico.
Nada há que não possas enviar-me,
faze tudo para dominar meu eu,
e assim, só Cristo viva e opere em mim,
nele, eu te cause somente alegria.
Pai, nunca me enviarás cruz ou sofrimento,
sem me conceder forças abundantes para o suportar;
o Esposo em mim ajuda a carregar,
a Mãe vigia: assim sempre somos três.
Se, porém, quiseres preservar-me do sofrimento,
só quero corresponder ao teu desejo paternal,
então te peço, afasta de mim toda adversidade,
tu és a única estrela de minha vida.
Até agora eu mesmo estive no leme
e, no barco da vida, muitas vezes te esqueci;
desamparado, para ti me voltei, de vez em quando,
para que o barquinho navegasse conforme os meus planos.
Dá-me, Pai, finalmente a conversão total!
No Esposo quero anunciar a mundo inteiro:
o Pai tem o leme nas mãos,
embora eu desconheça o destino e a rota.
Agora me deixo guiar cegamente por ti:
quero escolher somente tua santa vontade;
contigo atravessarei noites e trevas,
porque teu amor vela sempre por mim.
Amém! (Rumo ao Céu 393-400)
A filialidade heroica não é fácil, é um caminho de busca diária pela santificação, mas o Senhor caminha conosco, nossa Mãe caminha ao nosso lado e, em momentos particulares, nos carrega em seu colo.
- Somos chamados à filialidade heroica como pais de família, na educação dos nossos filhos num mundo de ideologias que os afastam do evangelho.
- Somos chamados à filialidade heroica como esposos que vivem a fidelidade num mundo de adultério e permissividade.
- Somos chamados à filialidade heroica como cidadãos que dão testemunho do evangelho não apenas com palavras, mas com a vida.
- Somos chamados à filialidade heroica como o Homem Novo na nova comunidade, que não separa a fé da vida, que vive extraordinariamente aquilo que é ordinário.
“O universo, com alegria, dê glória ao Pai, no Espírito Santo, em seu esplendor, louve-o por Cristo e com Maria, agora e na eternidade. Amém. (RC Ofício de Schoenstatt)
Texto : Kennedy Rocha
* Kennedy Rocha pertence ao Ramo da Liga de Famílias de Schoenstatt do Santuário Tabor da Liberdade